Wilson Santos, Cassandras e Tirésias

WILSON SANTOS, CASSANDRAS E TIRÉSIAS (E.M)Em 19 de outubro de 2016, a Comissão Parlamentar de Inquérito, presidida…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 28 de abril de 2017

 WILSON SANTOS, CASSANDRAS E TIRÉSIAS (E.M)

Em 19 de outubro de 2016, a Comissão Parlamentar de Inquérito, presidida pelo Dep. Oscar Bezerra entregou ao então Presidente da ALMT, Dep. Guilherme Maluf, um relatório dando conta do desvio de R$ 541 milhões das obras da Copa, na gestão de Silval Barbosa. A conclusão foi pelo indiciamento de 96 agentes públicos, 16 empresas privadas e 7 consórcios, incluindo o que é responsável pelo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Pelo que foi apurado pela CPI, as empresas que atuaram no malsinado VLT deveriam devolver 316 milhões de reais aos cofres públicos. Essa foi a informação oficial, publicada no sítio da própria Assembleia Legislativa, por meio da assessora Priscila Mendes, da Assessoria de Comunicação.

Retornando um pouco no tempo, vamos lembrar que o ex-deputado José Geraldo Riva foi ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito. Naquela ocasião, em refrega com o Dep. Wilson Santos, confessou que fez pressão para que o modal fosse alterado de BRT para VLT. Na ocasião, vaticinou: “nunca houve audiência pública para debater preço do VLT. O que querem fazer é desmontar um modal que é o melhor para esta cidade. E Vossa Excelência faz parte do grupo que quer fazer isso”, exara Riva contra Wilson Santos.

Em 06 de abril de 2016, o então Dep. Wilson Santos afirmou que o VLT é o maior escândalo da história da política mato-grossense. Foi além. Diante do ex-secretário Maurício Guimarães, ouvido pela CPI, acusou: “a mudança de modal foi para roubar milhões. Não estou dizendo que foi o senhor. Mas estou cada vez mais convicto disso. Foi para desviar dinheiro público. Um conjunto de situações me levou a essa conclusão”. Portanto, a opinião sempre contundente do tucano desnudou os esquemas, os favorecimentos, as armadilhas em que a população mato-grossense foi vítima. Não era necessário ser vidente. Nessa época, os ex-gestores já estavam processados ou presos, acusados da evidente corrupção ignorada por uma dúzia de fiscais desavisados.

Voltando ainda mais no tempo, quando era candidato em 28/04/2005, Wilson Santos atacou o modal e o contrato celebrado, da seguinte forma: “são milhões e milhões que essa quadrilha subtrai dos cofres públicos, dos contribuintes. O governador manchou Mato Grosso, esse fato é grave e é uma página negra na nossa história”. Do palanque, arrematou ainda que o ex-governador Silval Barbosa levava os deputados na coleira, acusando a ALMT de “puxadinho” e de “cozinha” do Poder Executivo Estadual. Convém lembrar, nessa trajetória toda, que o Veículo Leve sobre Trilhos foi uma ideia de muitos pais. O então Dep. Emanuel Pinheiro não só comemorava as obras do correligionário Silval Barbosa, como elogiava Eder Moraes: “todos os projetos técnicos estão em andamento, obedecendo à legalidade e à agilidade exigida para Cuiabá ter sua participação assegurada no Mundial de Futebol. Isso se deve ao trabalho conduzido pelo secretário Eder Moraes e à sua capacidade de diálogo com os poderes”. Hoje sabemos como foi esse diálogo.

De uma forma ou de outra, todos se lambuzaram de incoerência e alguns, de propina. O atual Presidente da ALMT, Eduardo Botelho, fez um alerta quase clarividente a Wilson Santos, quando saiu da Secretaria de Cidades para retornar ao parlamento a fim de defender não só a continuidade da obra, mas a manutenção do mesmo consórcio: “cuidado, deputado Wilson Santos. Você está trabalhando com as mesmas pessoas que mentiram para o povo. Um pessoal que pactuou com as mentiras. Foram à televisão dizer que a obra ia ser inaugurada e não inauguraram. Essas mesmas pessoas estão com o senhor hoje. O senhor abre o olho, porque esse consórcio mentiu para o povo. Avalizaram todas as mentiras do governo Silval. Na hora que o governo vinha na televisão, eles estavam lá, dizendo que estavam entregando tal dia. E tudo foi mentira”. Botelho bancou a Cassandra e, como é próprio do destino e de tantas outras Cassandras, Wilson Santos não acreditou nos conselhos, nos avisos, nas premonições.

Com a guinada de opinião não somente sobre o modal, mas com o próprio consórcio, Wilson Santos faz como Lula e se fale de um falecido que não pode se defender. Invocando Raul Seixas, afirma que prefere ser uma metamorfose ambulante. Nesse ponto, é preciso então pedir desculpas por coerência. Ou não, como diria Caetano Veloso.
Está claro que houve desvio. Um desvio milionário ocorre com num consenso político, um regime de cumplicidade entre gestores e fiscais. A CR Almeida e a Santa Bárbara são as empresas vencedoras. Sobre elas, o atual Governador Pedro Taques declarou, em 06 de julho de 2016: “é preciso aguardar as conclusões dos estudos e do ótimo trabalho que a CPI das obras da Copa vem realizando, mas existem fortes indícios que tiveram fraudes na licitação para o VLT. Ela foi elaborada e direcionada para que um determinado grupo vencesse a concorrência. E diante disso deve haver punições. O VLT é o maior escândalo de Mato Grosso”.

Chego à conclusão pela boca dos outros: a obra está viciada do princípio ao fim, desde uma licitação forjada até uma execução fraudada. Insistir nela já é um erro, porque contamina o atual governo com iniciativas corruptas do governo anterior. Persistir com as mesmas empresas, não cobrar a devolução e ainda entregar uma nova quantia bilionária para a conclusão das obras, é uma possibilidade que nem os escritores da literatura fantástica poderiam imaginar. Aviso não faltou. E não falta. Mas não adianta nada. Fico aqui me debatendo como o cego Tirésias: “como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem possui”.

 

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